Santo Souza

(JOSÉ SANTO SOUZA - Nasceu em Riachuelo, a 27 de janeiro de 1919. Jornalista, cronista, crítico e poeta. Escreveu: Cidade Subterrânea; Caderno de Elegias; Relíquia; Ode Órfídica; A Ode e o Medo. Tomou posse na Academia Sergipana de Letras no dia 4 de Julho de 1970.)

Nasceu e vive em Sergipe. Seu primeiro livro de poesias publicado foi CIDADE SUBTERRÂNEA (1953), seguiram-se CADERNO DE ELEGIAS (1954), RELÍQUIAS (1955) e ODE ÓRFICA (1956), cuja primeira edição, foi publicada, como os livros anteriores, por José Augusto Garcez em seu Movimento Cultural de Sergipe. Continuando sua trajetória de poeta, publica PÁSSARO DE PEDRA E SONO (1964), CONCERTO E ARQUITETURA (1974), PENTÁCULO DO MEDO (1980), A ODE E O MEDO (reedição da ODE e do PENTÁCULO com um canto introdutório em 1988), ÂNCORAS DE ARGO (1994), A CONSTRUÇÃO DO ESPANTO (1998). O crítico de literatura Jackson da Silva Lima encontra afinidades do poeta com outros da categoria de Valéry, Rilke, Fernando Pessoa e Eliot, mergulhando fundo na simbologia, esoterismo e complexidade de PENTÁCULO DO MEDO. O poeta foi agraciado com o Grande Prêmio de Crítica 1995, concedido pela associação de Críticos de Arte de São Paulo.(Texto: Gizelda Santana Morais)

Poemas: Ode órfica I
(Estrofes iniciais)


Era tão clara a tua voz, e tão
limpo o teu canto inaugural, ó noite,
que o tempo adormecia em tuas mãos!
De início, rejeitamos teus conselhos
dissimulados. Nautas fugitivos,
eis que a nave de Orfeu, que pilotávamos,
não nos pertence mais, pois a ofertamos
àqueles que hão de vir colher conosco
a treva e o medo, embora eles, no lago,
com a vida e as águas entre os braços, nos
surpreendam no triângulo da morte,
os olhos florescendo como peixes
que o teu milagre, ó noite, fecundou!


Transportamos pirâmides nos ombros,
para, sobre elas, construir o mundo
que nós, por sermos livres, sugerimos.
De música fizemos nossos mares,
para conter o céu que nos persegue.
Mas somos frágeis para suportar
a cabeça do Eterno, que se inclina
sonhando sobre nós, enquanto vamos,
ladrões famintos, carregando sombras.
Morrer? Não era a morte o que sonhávamos.
Somos pobres demais para morrer
com tanto ouro nas mãos, tanto arco-íris
nos olhos desta aurora que engendramos.
...

Do livro ODE ÓRFICA, 1956

Elegia número 16


Criaram flores de existência efêmera,
criaram noites e auroras nos caminhos,
aquários musicais para a canção
e estátuas para a vida e para a morte.


Criaram o teto do céu que sustentamos
em colunas de estrelas e de mares
e os rios que afagamos, derramando
a poesia da vida em nossas mãos.


E criaram também rios insones
que as nossas mãos jamais hão de acolher:
criaram faces com sulcos para as lágrimas,
pois havia corações para sofrer.


Mas sob o teto do céu que sustentamos
nós somos flores de existência efêmera
e – estátuas para a vida e para a morte –
nos deram olhos humanos para o pranto!


Do livro CADERNO DE ELEGIAS, 1954.
Opus 8

de auroras,
noites
e sereias

Jogo os dados no mar, como quem joga
a sorte das estrelas ou do vento,
e fico a embaralhar as ondas, como
o lúcido hierofante que desvenda


nas cartas o destino dos mortais.
Não sei qual é a carta-chave, mas
capto o sentido exato e a voz de quem
profere a frase mágica de tudo.


E se há no fundo náufragos que vão
com dedos ágeis folheando páginas
de noites e de auroras impossíveis,


na superfície há sempre olhos profanos
de peixes e sereias, traduzindo
o jogo de meus dedos sobre o mar.

Do livro CONCERTO E ARQUITETURA , 1974

 
 

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