Camisetas Vermelhas, Resgate do sonho de um Brasil melhor

01/11/06

 

Maria Belmoral

"Um homem não é o produto de laboratório.
Um homem é ele e mais as circunstâncias e, eventualmente, sua condição de vida, apesar das circunstâncias. É ele e mais sua casa, sua rua, seus vizinhos, seus hábitos, seus costumes, sua religião, sua culinária, suas canções, sua arte.

Quando, porém, essa tradição cultural é interrompida brutalmente pelo poder político, comercial, econômico e, principalmente, pelos meios de comunicação, o homem fica impedido de atuar e impor culturalmente aquilo que está intrínseco ao seu espírito. Então, ele se transforma numa coisa, num macaco de imitação da classe dominante que é justamente aquela que o mantém longe das escolas, dos museus, das universidades.

Nenhum homem quer uma vida nova na qual não crê e na qual, por mais feio e infeliz que seja, ele não será ele. Pois se não for ele, como poderá sentir as coisas? O homem quer esta vida que tem e quer que lhe dêem a possibilidade de melhora-la; de ser feliz nos dias, meses, anos que lhe restam. É isto que o homem pede; que não o atrapalhem, não o atropelem, não o humilhem e não o matem antes do tempo, pois a vida tem muitas coisas belas - quase todas - e é preciso desfruta-las."

Fausto Wolff

CAMISETAS VERMELHAS

O suor contido em todas e (ainda) tantas camisetas vermelhas, as peles queimadas pelo sol ardente, os corpos cansados, as gargantas secas e, sobretudo, uma convicção inabalável nas palavras por tantas vezes revistas, modificadas, conjunturadas, repensadas, justificadas, novamente justificadas e convencíveis ditas por esses homens e mulheres, minto, guerreiros e guerreiras, fizeram, de fato e na prática, virar verdade o que era apenas uma possibilidade de um segundo Mandato da Esquerda em nosso país. Mais que isso, esses guerreiros e guerreiras incansáveis e trajados de camisetas vermelhas, provaram-nos mais uma vez que a História - em especial a nossa - é um processo de criação, satisfação e recriação contínuas das necessidades humanas. Penso que é isso que Fausto Wolff nos tenta dizer brilhantemente, que é esse processo histórico no qual interagimos é que nos diferencia dos animais, cujas necessidades são fixas e imutáveis. Em nosso caso, a História inevitavelmente se compõe por um incessante processo de organização social (ainda bem), por escolhas políticas (que o diga o resultado das urnas), mas, preponderantemente, pelo desafio constante à nossa capacidade de rompermos com todos os tipos de exclusivismos e interesses únicos. O que está em jogo na construção da nossa História, apesar das muitas desigualdades, diferenças e pluralidade que recortam as classes sociais, é a possibilidade de fazer valer a vontade coletiva de sermos de nos opormos radicalmente ao que a Direita se esmera em enraizar. Nossa tarefa, nesse segundo Mandato, é garantir o pleno entendimento da nova virtude do mundo moderno: o respeito pela diversidade humana.

Dado o contexto, não nos cabe classificar os cidadãos - inclusive os trajados de camisetas vermelhas - que compõem nossa sociedade pela quantidade de conhecimento acumulado, mas sim, respeitar, acatar e legitimar aquilo que cada um deles pensa e sente e, conseqüentemente, o que cada um deles oferece e influencia nas várias formas de vida que são recriadas dentro da nossa região, que por sinal, é tão culturalmente diversificada.

Um cidadão - como aqueles tantos que não vestiram outra coisa senão as camisetas vermelhas nos últimos dias - quando envelhece e morre, parte carregado de obras e, sobretudo, carregado da mais ilustre responsabilidade: a da consciência humana. O tempo que um homem guerreiro vive e acumula conhecimento o diferencia dos outros, tanto nas manifestações sociais, como no seu entendimento político (repito, que o digam as urnas). Na medida em que respeitamos essas diferenças, fazemos com que os guerreiros de camisetas vermelhas vençam a guerra do pensamento contra a matéria, a guerra da razão contra o preconceito, a guerra do justo contra o injusto, a guerra pelo oprimido contra o opressor. Respeitar a diversidade ensina, pacifica e civiliza.

A condição para que uma vida social se concretize numa região como a nossa parece ser, aos olhos do neoliberalismo, a de que um cidadão - vestido ou não de camiseta vermelha - não pense fora de sua casa (que o digam os últimos anos do governo municipal de São Bernardo). Em nossa região não há quem não advogue a causa dos direitos do cidadão, quando, porém, se entra nos conteúdos desse desejo, a discordância explode. O que almejam, afinal, as elites da nossa região (que votaram massificadamente contra a Esquerda e contra os projetos que dela surgiram)? Reduzir a distância entre a "massa" e elas? Claro que não! Penso que elas atuam no sentido contrário, porém, (não se enganem) sempre politicamente bem maquiadas, camufladas pelas ações assistencialistas e na defesa dos programas compensatórios.

Mas (que o digam as urnas novamente) os guerreiros e guerreiras vestidos de camisetas vermelhas determinaram seus atos e dirigiram seus comportamentos; foram desses comportamentos que resultaram, afinal, os fatos sociais, como a reeleição do Presidente Lula.

E (acredito mesmo, não é força de expressão) dentro dessa razão é que se educa, se forma, se modela e se define a maneira de ser da nossa gente, da gente do ABCD. É na essência da sua consciência e do seu bom senso (olhem lá as urnas de novo...) que nossa gente adquire características próprias, tendências, impulsos, motivações, aspirações, acumulo cultural e tudo mais que couber dentro do seu espaço como cidadão. Com ou sem camiseta vermelha.

Maria Belmoral é escritora, roteirista e autora da peça Frida Kahlo

  

  

 

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