Pedro J. Bondaczuk
 
Parceira sim, antagonista jamais
Fragilidade da memória
Luz interior
   

 

Parceira sim, antagonista jamais

A data de 8 de março assinala o Dia Internacional da Mulher, celebrado, em várias partes do mundo, desde 1910. Muitos ainda agem, em pleno século XXI, como se a igualdade de direitos e deveres entre pessoas de sexo diferente fosse mera concessão masculina.

Trata-se de mais uma atitude grotesca de discriminação de gênero, que embora punida pela lei, e enfaticamente negada pelos que a praticam (a grande maioria), permanece arraigada na mente tacanha de muita gente. Quem age dessa forma, vale-se da impunidade para sonegar direitos de quem deveria ser encarada, sempre, em toda e qualquer circunstância, como parceira e nunca como subalterna ou antagonista.

Ao contrário do que diz a letra de uma popular música "funk", "tapinha de amor" na verdade dói, e muito. Até porque, quem ama não agride, nem por ações e nem por palavras, e muito menos explora, mutila e mata sua parceira. Esse comportamento odioso, de agressão e de continuado desrespeito masculino em relação à sua companheira, prevalece no mundo todo. Em alguns países verifica-se, até, considerável aumento desses casos, que via de regra permanecem impunes.

Muitas autoridades consideram esses episódios meramente como "assuntos de família", e não como os graves delitos que são, passivos de punição aos agressores, e por isso, evitam de interferir, a menos que a vítima de espancamento venha a falecer. Daí a carência de estatísticas a respeito, em especial dos países islâmicos, asiáticos e da América Latina.

Mulheres têm sido condicionadas, ao longo da história – mesmo nestes tempos de globalização, em que têm cada vez mais acesso a todo o tipo de informação – desde meninas, à sujeição e à absoluta obediência ao homem, seja pai, irmão, namorado ou marido. São tratadas como subalternas, eternas crianças, sem vontade, responsabilidade e tirocínio para distinguir o bem do mal. Por medo, ou condicionamento, ou outra razão qualquer, sujeitam-se a essa situação absurda e até condicionam as filhas para agirem dessa forma.

Trata-se de questão até cultural, de arraigada mentalidade de dominação do suposto "sexo forte" sobre o alegado "sexo frágil", que precisa ser mudada, e logo, mediante amplas e repetitivas campanhas de conscientização, além da aprovação de leis muito mais duras e severas do que as atuais, e que, sobretudo, sejam rigorosamente cumpridas pelas autoridades, além de uma reação enérgica e sistemática por parte das vítimas.

Todavia, em vastas partes do mundo essa idéia de sujeição é, não somente mantida, como muitas vezes ampliada. Em 1995, por exemplo, os países islâmicos (cuja população somada gira ao redor de 1 bilhão de pessoas), divulgaram a doutrina da "Eqüidade Relativa". Ou seja, rejeitando a noção da igualdade de direito entre os sexos.

A tese em questão, inclusive, foi apresentada oficialmente, em conjunto pelas delegações muçulmanas, na "IV Conferência Mundial sobre a Mulher", organizada pela Organização das Nações Unidas, realizada de 4 a 15 de setembro daquele ano, em Pequim, na China. Na Índia, a palavra em sânscrito para "marido" significa "dono".

Mesmo quem não admite essa postura, a adota na prática, tanto nos países considerados potências, em termos políticos, econômicos, militares, sociais e culturais, quanto nos Estados atrasados e miseráveis da África e da Ásia, que integram o que se convencionou chamar de Quarto Mundo (nestes, evidentemente, em grau e intensidade infinitamente maiores).

Uma das formas mais cruéis (e no entanto mais comuns) de violação dos direitos humanos das mulheres é a discriminação social a que elas ainda são submetidas pelo mundo afora. Esse tipo de "agressão", fruto exclusivo do "machismo" e de arraigado preconceito, é extremamente perverso, pois além de comprometer o presente, arruína o futuro de quem é sua vítima, mantendo-a sob absoluta sujeição por toda a vida.

São raríssimas as pessoas que conseguem escapar dessa poderosa armadilha, principalmente se tiveram a infelicidade de nascer em países atrasados e carentes, mergulhados na miséria e na ignorância. Relatório recente, divulgado pelo Banco Mundial, revela que dos mais pobres do mundo, 70% ainda são mulheres! E a situação não dá mostras de reversão, pelo contrário.

É certo que da segunda metade do século XX em diante, as mulheres obtiveram miraculosas conquistas, sequer sonhadas apenas cem anos atrás por suas passivas e obedientes avós. Conquistaram, por exemplo, o direito de votar e de serem votadas. Passaram a freqüentar maciçamente as escolas, ascenderam às universidades, tomaram de assalto os laboratórios de pesquisa, as redações de jornais, os meios de comunicação em geral, onde, em muitos países (inclusive no Brasil), já chegam a se constituir em maioria. Foram, portanto, à luta e ganharam espaço crescente no mercado de trabalho.

Hoje, principalmente nos países de maior desenvolvimento econômico e social, ocupam, cada vez mais, posições de destaque e de poder, como empresárias, profissionais liberais, políticas etc. São médicas, astronautas e engenheiras. Comandam navios, pilotam aviões e fazem coisas inacreditáveis. São atletas bem-sucedidas, que nada ficam a dever aos homens. Tratam-se de vitórias nada desprezíveis, convenhamos. Mas ainda se constituem em gotas d'água em um oceano de desigualdades. Ainda estão anos-luz de distância da sonhada igualdade de direitos e de oportunidades.

A ex-deputada federal Iara Bernardi, do PT de São Paulo, observou, com muita propriedade, em artigo publicado no Correio Popular: "A mulher, no Brasil, continua a ser vista como uma extensão ou uma propriedade masculina, o que confere ao homem o pretenso direito de dispor de sua liberdade, de seu corpo e de sua vida". Essa idéia de dominação e de sujeição é que precisa ser combatida e substituída pela de parceria e cooperação, em estrito pé de igualdade. Parceira sim! Antagonista, ou subordinada, ou serva, ou subalterna, jamais!
 

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Fragilidade da memória

O poeta grego Paladas de Alexandria, que viveu no século 4 da nossa era, sentenciou, num de seus poemas: “Vim nu à terra e nu irei para baixo dela./Por que canseiras vãs se o fim é só nudez?” Mas seria realmente assim? Tudo, nossos sonhos, esforços, canseiras, desgastes e ambições se resumiriam somente a isso? Para a maioria esmagadora dos seres humanos, sim! Vários bilhões de pessoas nasceram e morreram desde que a vida surgiu neste Planeta. No entanto, há registros, lembranças ou referências de apenas alguns milhares delas.

Da esmagadora maioria, não há o mínimo vestígio da sua passagem pela existência. Nenhuma obra marcante, nenhum ato de coragem ou de covardia, de vileza ou de bondade, nada. Absolutamente nada. É como se tais homens e mulheres jamais houvessem nascido. E, no entanto, nasceram, amaram, odiaram, sofreram, tiveram alegrias e com certeza chegaram a se julgar o centro do universo.

Pobre condição humana...Todos nós somos assim. O escritor norte-americano Ambrose Bierce, no seu livro “O Dicionário do Diabo”, que é uma sucessão de definições cínicas e amargas, e no entanto verdadeiras, define vida como sendo “uma salmoura espiritual que preserva o corpo de decadência”.

Mas não é a efemeridade orgânica o fato mais preocupante. O que preocupa é a possibilidade do eterno esquecimento. Daí a necessidade que o homem tem de deixar alguma obra-prima para a posteridade. Tal legado não é uma garantia absoluta de que o indivíduo não será esquecido. Alguma eventual catástrofe – e o mundo sempre foi pródigo delas, tanto das naturais, quanto das provocadas pela insensatez humana – pode vir a soterrar por séculos, milênios, quiçá para sempre, seu legado à humanidade. Todavia, a ausência desse trabalho marcante é uma garantia do absoluto, do eterno e do inexorável esquecimento.

Os romanos tinham uma veneração toda especial pelos seus mortos. Veneravam os ancestrais desaparecidos como deuses e até erguiam altares no local mais nobre de suas casas para essa adoração. Esta, aliás, é a origem das lareiras, que não se destinavam, em absoluto, ao aquecimento das moradias, como ocorre hoje nos países frios e nem à simples decoração das residências. Era o local de culto dos entes queridos desaparecidos e sua lembrança permanecia viva através de muitas gerações. Todavia, nenhuma dessas pessoas é lembrada ou identificada hoje. Gaetan Picon escreveu que: “A obra não é eterna, mas a continuidade da criação artística, que a submete ao jogo das revivescências e das metamorfoses, é como uma miragem de eternidade”.

O homem está na dependência de forças externas cuja existência, a despeito de toda a tecnologia que desenvolveu, sequer atina. A esse propósito, o poeta Mário Quintana constatou, num texto que chamou de “Epílogo”: “Não, o melhor é não falares, não explicares coisa alguma. Tudo agora está suspenso. E sabe Deus o que é que desencadeia as catástrofes, o que é que derruba um castelo de cartas! Não se sabe...Umas vezes passa uma avalanche e não morre uma mosca... Outras vezes senta uma mosca e desaba uma cidade”.

Mas a vida não consiste só em canseiras por nada e nem termina, necessariamente, em nudez...Descobrir seu verdadeiro significado e sua finalidade são as nossas maiores tarefas, das quais não temos o direito de abrir mão, sob pena de não deixarmos o mínimo vestígio da nossa passagem pelo mundo, ao cabo de uma ou duas gerações ou, quem sabe, até menos.

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Luz interior

A comunicação – quando exercitada com amor, e com o genuíno desejo de, não apenas penetrar na mente das pessoas e sondar seus desejos, angústias e necessidades, mas, principalmente, lhes apontar caminhos para a solução dos seus problemas – é, mais do que um dom: é uma arte. Trata-se, porém, de imensa responsabilidade, principalmente quando o veículo utilizado é o texto e quando seu alvo é o público em geral, e não alguém específico.

Nunca se sabe em quais mãos a crônica, o artigo, o ensaio (ou seja lá que tipo de escrita que for) vão cair. Desconhece-se, por exemplo, o estado de espírito desse leitor no momento da leitura, sua condição de saúde (física, mental e/ou psicológica), se está feliz; se, ao contrário, sofre por alguma razão qualquer (perda de um ente querido, demissão no emprego, doença própria ou de alguém da família etc.etc.etc.); se é ou não influenciável pelo que ouve ou que lê e assim por diante. Mesmo assim, apesar de todos esses cuidados, às vezes, por imperícia (e juro que não por má-fé), acabo por ser causador de ainda mais sofrimento a alguém que já esteja sofrendo. Imaginem se não me cercasse de tanta cautela!

Podemos, com o nosso texto, tanto consolar, animar e incutir otimismo e vontade de vencer em quem nos lê, quanto levá-lo ao desânimo, à depressão, ao desespero e, em casos extremos, até ao suicídio. E raramente temos ciência dos efeitos e do resultado do que escrevemos.

Por isso, sempre que me preparo para este ato de comunicação, penso, em primeiro lugar, nessa possibilidade. Analiso se o tema é construtivo, se a colocação é adequada e se a exposição das idéias está clara, sem qualquer ambigüidade. Caso não sejam, apago o que eventualmente já esteja escrito e parto para outro tema, cercado das mesmíssimas cautelas. Se, pelo contrário, sentir que satisfiz todas as condições auto-impostas, dou a crônica (que é o gênero de que mais me utilizo para comunicação com o público) por concluída.

Não raro, mesmo com todos esses cuidados, não me sinto seguro do que escrevi. Procuro em minha biblioteca algum livro sobre o assunto para me esclarecer melhor. E refaço o texto, mesmo que já esteja atrasado na sua entrega ao editor. Quando o concluo de novo, peço a alguém da minha plena confiança que o leia, com o olhar mais crítico possível, e que me aponte todos os defeitos que encontrou. Se o assunto, ou a sua abordagem, forem por demais polêmicos, busco mais de uma opinião (já houve casos de pedi-la a até dez pessoas), antes de me dar por satisfeito e encaminhar o texto em questão para divulgação em sites e jornais, ou de expô-lo em meus blogs.

O que procuro, ao escrever, é uma certa luz interior, que me desperte empatia com os semelhantes. É colocar no texto todos os princípios que me foram incutidos por meus pais, por meus mestres e pelos milhares de escritores que li e que me tornaram no que sou. Na maioria das vezes, tenho conseguido isso, a julgar pelos comentários sobre minhas crônicas, feitos na internet ou nas cartas e nos e-mails que recebo. Às vezes, porém...Dou magníficos escorregões e recebo ásperas reprimendas públicas, por esses mesmos meios.

Essas críticas, apesar de machucarem o ego, são preciosíssimas, até aquelas mal-educadas e com palavras chulas, feitas com o objetivo deliberado de me ridicularizar. Procuro aceitá-las com humildade e evito polemizar. É verdade que às vezes a vaidade fala mais alto e dou respostas um tanto quanto atravessadas para os mais atrevidos. Tolice minha, claro!

Na minha atividade de comunicador, busco pautar minhas ações por estas palavras, ditas por um dos seres humanos mais preciosos e altruístas que já existiram, o Dr. Albert Schweitzer – que dedicou mais de 60 anos de sua longa e produtiva vida (morreu com 92 anos de idade) a curar leprosos em um tosco hospital em plena selva africana –: “Quando existe dentro de alguém a luz interior, ela transparece e se irradia. Então nos reconhecemos mutuamente, mesmo na escuridão, enquanto caminhamos lado a lado”.

Li essa citação há muito tempo, há 41 anos, na edição de 2 de outubro de 1965 da revista “O Cruzeiro”, que há muito já não existe. O Prêmio Nobel da Paz de 1952 disse essas palavras a respeito da esposa, Helena Breslau, que o acompanhou até o último momento nesse seu sublime sacerdócio. E elas foram citadas pela repórter Leda Barreto, na matéria “Schweitzer, morre um feiticeiro branco”, publicada pela referida revista.

É essa luz interior que busco todos os dias, quando me preparo para escrever, o que faço, pontualmente, há mais de quatro décadas, profissionalmente ou não. Não sei se já consegui estabelecer, em alguma ocasião, essa empatia com o leitor, mas continuo tentando. Para isso, cultivo o mais que posso o otimismo e valores positivos, mesmo quando as circunstâncias me aprontam das suas.

Não tenho o direito de ser pessimista, amargo ou desanimado e muito menos de difundir esses sentimentos através dos meus textos! E isto até por um motivo egoísta, para a preservação da minha saúde, pois como constatou o filósofo norte-americano Will Durant, em seu clássico “Filosofia da Vida”: “A fé, a esperança e o amor parecem expandir-se em cada célula do nosso corpo; a dúvida, o medo e o ódio contraem-nos os tecidos, como se fossem venenos – e fisicamente são venenos”. Como não quero me envenenar e muito menos envenenar meus leitores...procuro seguir a trilha do bom-senso.

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