Nélida Piñon

Saiba mais quem é  Nélida Piñon Membro da Academia Brasileira das Letras (ABL), da qual foi presidente entre 1996 e 1997, a escritora Nélida Piñon é uma de nossas entrevistadas deste mês.

 
Wagner Lemos
- Literariamente falando, quando você começou a escrever?
Nélida Piñon - Comecei a escrever menina ainda, lendo os livros que me davam, inventando os que eu não tinha à mão. Inventar é uma saga antiga, precedeu-me antes do nascimento. Talvez tivesse sido a vocação de meu avô, Daniel, imigrante galego , que se aventurou cedo a cruzar o Atlântico, obedecendo ao gosto da aventura, e à necessidade de instalar-se numa terra que lhe ofertasse horizontes mais amplos. Ou talvez inventar tenha começado com meu pai, Lino, igualmente disperso e com a cabeça tantas vezes mergulhada nos livros.

Não saberia inventariar o meu passado, dar-lhe credibilidade, apontar razões determinantes de um quotidiano ultrapassado e já entregue à minha mitologia pessoal.

As aspirações humanas, afinal ,se confundem entre tantos escombros. Sabemos tão pouco dos instantes que foram fazendo o nosso destino, a ponto de traçarmos uma biografia completa, que não colida com o tempo e o espaço interiores.

Mas, com oito anos, proclamei-me escritora. Não sei, porém, em que instante, e de que abrigo, saiu mais tarde esta outra escritora, que sou eu hoje, que aspirava abarcar os seres e os enigmas .E que , reconhecendo o trato difícil com as coisas, empenhava-se em ir além do visível, do possível . De onde terá vindo ela para resistir às formas convencionais que não aceitam retoques? Penso que esta escritora, exigente, e em estado de vigília, foi consolidando-se com a reflexão, com a experiência, com as manhas e as seduções do próprio ofício.

Wagner Lemos – Como foi esse processo de sua formação literário-cultural?
Nélida Piñon - Tive a sorte de ler tudo que queria. Jamais sofri censura. Portanto, tive acesso a toda classe de escritores que foram, de verdade, meus mestres. Lia-os com volúpia, aprendendo como forjavam eles um texto que me induzisse a crer em seus inventos. Percebi, cedo ,que para armar uma estrutura narrativa , não bastava talento .A ele era mister aduzir trato diário com a palavra, com a emoção , que a epopéia secreta do texto filtra, definir o tempo que é simultaneamente sutil e pesado , entrelaçar espaços e ação , aprender a pensar enquanto cria, sem perder de vista a carnalidade misteriosa dos personagens. Jamais esquecer que a ilusão ,de qualquer parágrafo, tem por fim convencer o leitor de que é ele cúmplice da nossa odisséia narrativa.

Wagner Lemos – Quais autores a influenciaram? Com que aprendeu mais?
Nélida Piñon - Insisto que aprendi com todos. Com autores e seres fora do âmbito literário , uma vez que circulei intensamente por formas de vida e de literatura .Fui e sou leitora atenta da história , da teologia , da filosofia. A narrativa, porém, abriu-me caminhos e consolidou minha consciência moral e estética . Assim , leio e releio Homero , Shakespeare , Proust . O russo Dostoievsky mostrou-me a escuridão que mantém o humano prisioneiro de apetites bestiais. No Brasil, Machado de Assis está invicto. No mundo que provém da península ibérica, das raízes latinas, reverencio Cervantes. Poderia acrescentar tantos nomes. Homenageio ,porém, a Monteiro Lobato e Karl May. A aqueles autores que, de tanto mentirem e difundirem as peripécias, abriram a porta da aventura por onde eu circulava absorvendo os postulados da liberdade.

Qualquer avanço que terei acumulado, originou-se de uma devoção intensa ao meu ofício. A persistência em prosseguir , em jamais desistir de considerar meus textos imperfeitos. Sempre em busca do meu Graal que constituía simplesmente de uma página relativamente limpa, próxima à minha aspiração literária.

Wagner Lemos - Fale um pouco de sua experiência como presidente da Academia Brasileira de Letras.
Nélida Piñon - À frente da ABL , tratei de levar adiante o bastão recebido dos meus grandes antecessores. Fiz o que eles fizeram, manter a dignidade da Casa no ano do seu Centenário .Esta instituição ilumina o Brasil e aprendi muito naquele período.Posso mesmo dizer que o trabalho trouxe-me alívio, aprendizagem . Sobretudo o sentimento de haver devolvido ao Brasil, à minha língua, tudo que recebi das entidades míticas que ainda hoje fecundam a minha alma.

Wagner Lemos – Como é sua experiência de representação cultural brasileira no exterior?
Nélida Piñon - Tenho orgulho da cultura brasileira que apresento nas universidades estrangeiras, nos congressos internacionais .É difícil desempenhar este papel uma vez que somos minoritários , tão desconhecidos. Tenho a contínua sensação de havermos sido esquecidos ao longo da história . Contudo, não renuncio a travar o combate indispensável.

Wagner Lemos – Mais recentemente, como você enveredou pelos caminhos do Oriente Médio em sua obra?
Nélida Piñon - Após haver explorado a gênese brasileira no romance A República dos Sonhos, nos anos que se seguiram empenhei-me a fazer da própria narrativa personagem de um romance. Queria imergir em um universo que explicasse a vocação humana para resgatar valores de que dependemos para legitimar nossa história pessoal e , aquela outra ,que nos circunda . Para isto, ao olhar o mapa, ancorei no Oriente Médio. Aquela região que quebrou o paradigma da invisibilidade e engendrou o monoteísmo. Um deus invisível e abstrato. Um novo conceito de fé. Portanto, avançando um pouco mais, enveredei pelo deserto, esta pairagem cruzada por caravanas, mentiras, histórias, intrigas, demônios, especiarias, seda. Estas rotas propícias a toda espécie de narrativa. Depois, coloquei a emblemática Scherezade no âmago mesmo de Bagdad, a cidade mítica e eterna . Com Scherezade e sua trupe à frente, circundados pela tirania do Califa, a imaginação se alvoroça e pretende triunfar. Daí , foi o fazer do romance ao longo de cinco anos , enquanto lia , estudava , adentrava-me pelo mundo islâmico . Um saber que, afinal, precisei dissolver em prol da integridade ficcional.

Wagner Lemos – O contexto literário contemporâneo, segundo Nélida Piñon.
Nélida Piñon - Vejo turbulência, inquietação, um período secreto. Não é tanto uma hibernação. Talvez a pausa que precede a grandes revelações. Aplaudo o grande número de jovens que enfrentam corajosos o fazer literário. Estou na expectativa, com o coração emocionado.


Wagner Lemos – Quanto ao Brasil da atualidade o que você tem a dizer?
Nélida Piñon - O Brasil, de hoje, é rotineiro. Esforça-se, mas parece não se mover, dar o salto que o levaria à mínima transcendência, à justiça social. Tenho desalento, mas cobro liderança de todos, de cada um de nós. Mas, como combater um Estado que se armou para nos desconsiderar?

Wagner Lemos – Como você soube da premiação na Espanha do troféu Príncipe das Astúrias e o que tem a dizer sobre isso?

Nélida Piñon - Na antevéspera da premiação, soube que era uma das finalistas e favorita à láurea. Mas fui dormir serena, por volta de 1h30, não sem antes terminar um artigo e de ler mais um capítulo de "Os Inimigos de Machado de Assis", de Josué Montello. Às 5h já estava acordada. Por volta de 6h30 recebi o telefonema do Presidente do júri, e da Real Academia de Espanha, Dom Victor Garcia de la Concha dizendo que havia sido uma vitória consagradora. Fico muito feliz, porque é um dos grandes prêmios do Ocidente, portanto, do mundo. Fico feliz também por ter sido dado a um brasileiro.

Wagner Lemos – Para finalizar, Nélida por Nélida...
Nélida Piñon - Sou taurina e meu ascendente é sagitário. Conjugação de terra e fogo. Será que me explica? Quanto aos sonhos, eles são discretos. Talvez quisesse aprender a viver, a morrer. A manter a dignidade, a seguir considerando a compaixão e a misericórdia sentimentos altaneiros, indispensáveis para o exercício da nossa humanidade. Será que falei demais?

 

Entre em contato