Lilian Fontes


Entrevista com Lilian Fontes, escritora, arquiteta e doutoranda em Comunicação, fala sobre sua carreira, sobre Literatura, sobre o avô, o romancista Amando Fontes (1899-1967) e muito mais.
 


Wagner Lemos
- Fale um pouco sobre suas origens e de como começou o fazer literário em sua vida e como foi a trajetória até chegar à arquitetura, comunicação e literatura?

Lilian Fontes
- Eu nasci no Rio de Janeiro onde vivo até hoje. Minha paixão por literatura vem desde a infância. Meu avô, Amando Fontes, era escritor e seus amigos costumavam freqüentar uma casa que tínhamos na serra onde eu passava as férias. Manuel Bandeira vivia lá e sua poesia me entrava pelos poros, algumas eu recitava de cor. Então, minha primeira relação foi com a poesia. Olhava para os poetas e sentia um certo fascínio por estes “seres”, achava que eles sabiam algo além. E daí, meu interesse pela leitura foi aumentando. Na adolescência eu lia de tudo, desde livrinhos românticos de banca de revistas até filosofia e os clássicos. E a leitura foi me estimulando a me fazer criar as minhas histórias. Meu primeiro conto eu escrevi com 16 anos.
Na época de ingressar na universidade, pensei em fazer letras, mas acabei me dirigindo para arquitetura, pois tinha uma certa facilidade para desenho, gostava muito de artes, de matemática. Nesta época, havia muita insegurança quanto ao meu trabalho em literatura, por isso fiz esta opção. Mas meu caminho era mesmo as letras, não conseguia parar de me dedicar aos livros, e, em 1981, quase terminando a faculdade de arquitetura, decretei que eu tinha que encarar mais seriamente esta minha necessidade. Comecei a ler sobre teoria literária e a formular meu livro de contos, Escrita Fina, que só veio a ser publicado em 1991.
Bem, portanto, a minha formação universitária foi em arquitetura , profissão que hoje exerço esporadicamente, devido aos outros caminhos que fui abrindo na minha vida. Em 1997, já com dois livros publicados, terminei meu curso de mestrado em Comunicação e Cultura, que busquei justamente por poder ampliar minhas áreas de atuação. Era um curso transdisciplinar que me permitiu fazer uma tese na área de literatura.
Atualmente, trabalho como subeditora de um jornal de artes e faço alguns projetos de arquitetura. No Brasil, são poucos os escritores que conseguem viver só de livros. As edições geralmente são pequenas, o retorno financeiro quase ínfimo. Portanto, tenho de dividir meu tempo de dedicação ao meu trabalho literário com outros trabalhos que me dêem retorno financeiro mais imediato. Além disso, tenho duas filhas que me ensinaram a escrever nas mais diversas situações, ou seja, sentada no chão de seu quarto enquanto as vejo brincar. Quando estou para finalizar um livro, costumo acordar às 5:30 da manhã, hora em que a casa ainda está tranqüila.

Wagner Lemos - Quais os seus gostos literários? Que autores prefere? Quais a influenciam de forma mais incisiva?

Lilian Fontes
- Difícil precisar os autores que me influenciaram, pois sempre li de tudo: ficção e todas as suas vertentes, ensaios e muita poesia. Tive uma brilhante professora de literatura no meu ginásio, a Marta de Senna que me deu o passeio pelos escritores da nossa grande literatura como: Machado de Assis, José Lins do Rego, Érico Veríssimo, José de Alencar, Clarice Lispector, Raquel de Queiroz, etc. Aos 13 anos conheci pessoalmente Rubem Fonseca por intermédio de uma amiga e comecei a lê-lo. Nessa época eu também era apaixonada por Fernando Pessoa que me fez ter um maior entendimento da vida.
Aos 24 anos resolvi me dedicar aos grandes clássicos: Proust, Balzac, Dostoiévski, James Joyce, Cervantes e outros. Portanto, é difícil traçar uma influência. Nos contos, um que admiro profundamente é o Julio Cortazar, mas aí tem o Rubem Fonseca, Lygia Fagundes Telles, enfim...

Wagner Lemos - Fale um pouco da experiência de trabalhar com Rubem Fonseca, e trace detalhes de como foi esse projeto.

Lilian Fontes
- Trabalhar com Rubem Fonseca foi extremamente importante por eu ter captado na prática o ofício árduo de um escritor. Ele me ensinou que não basta ter talento é preciso ter garra para trabalhar e muito.

Wagner Lemos - Filosofia e Cosmologia... como entraram em sua vida? Mais: você as utiliza de alguma forma na sua produção literária? O que esses estudos mudaram em você?

Lilian Fontes
- A filosofia faz entender melhor os acontecimentos da vida, os comportamentos, as noções sobre liberdade, criação. Cosmologia foi uma forma de ampliar este conhecimento, ir além. Como eles entram na minha criação? Bem, estes estudos modificaram o meu olhar sobre o mundo, sobre a existência humana e assim vai fluindo pela minha literatura.

Wagner Lemos - Seu romance Dia Santo tem um enredo interessantíssimo. Como surgiu a idéia dele?

Lilian Fontes
- O romance Santo Dia se passa num dia, dentro de um único lugar. Não foi um projeto definido anteriormente. Ele começou a partir da primeira frase e aí foi me levando. Eu tinha acabado meu mestrado onde se estudou muito a interferência das novas tecnologias no nosso modo de ser, daí o protagonista ser um “ser virtual”. Nos meus romances eu nunca sei como vou terminar. Aquela história de que o personagem sai andando com pernas próprias realmente acontece comigo.
O que normalmente ocorre, é que primeiro surge o tema sobre o qual eu quero criar uma história. Dependendo da abordagem que quero dar, desenvolverei uma narrativa curta, o conto, ou uma narrativa longa, no caso, a novela ou o romance. Depois, entra a forma de narrar: esta é que me dá mais trabalho. Até eu engrenar no jeito, no tipo de escrita, demora. Minha preocupação maior é com o uso da palavra. Eu sempre fui ligada em poesia. Embora eu não me pretenda poeta e sim ficcionista, a poesia sempre me acompanha e eu acho que através dela é que aprendi a verdadeira força da palavra, do uso da pontuação, da língua. É curioso, às vezes ocorre de eu começar uma estória por uma frase que vem e daí surgem os personagens. É como dizia Clarice Lispector ao explicar que o seu material básico era a palavra e ela dizia “o que vem à tona já vem com ou através da palavra ou não existe”.

Wagner Lemos - Qual o projeto que está colocando em prática atualmente?

Lilian Fontes
- No momento escrevo um romance um tanto trabalhoso. Tenho um livro de contos pronto, mas não sei se o publicarei agora.

Wagner Lemos - Como gostaria de ser lembrada no futuro?

Lilian Fontes
- Como escritora.

Wagner Lemos - Lilian por Lilian...

Lilian Fontes
- Lilian por Lilian? Difícil responder. Sou uma pessoa muito emotiva, sinto as coisas profundamente. Nisso tem um lado belo e um lado de sofrimento. E é a escrita que me salva.

 

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