Lara Aguiar

Homogeneização da programação cultural dentro da perspectiva adorniana

A TV mostra todos os dias uma programação repetitiva, enfadonha e descartável. Mastiga-se, saboreia-se e cospe-se o lixo que emperra na goela dos telespectadores. Essa é uma característica clara de um dos meios de comunicação que favorece a homogeneização dos produtos culturais.

As novelas, os programas de auditório, as músicas românticas são todos muito parecidos entre si. Os interessados da cultura de massa se defendem dizendo que há poucos centros produtores e milhões de consumidores. Theodor Adorno mostra, por outro lado, de que forma se processa o papel da técnica na constituição daquelas obras.

O filósofo alemão Adorno (1903-1969), em sua obra intitulada “Dialética do Esclarecimento”, vê a cultura de massa como um produto especializado, dirigido para um determinado público, mas com homogeneidade dentro de cada área, traduzindo fórmulas de sucesso. Essa questão técnica (uniformidade), envolta pela crença numa realidade em que há poucos centros de produção e milhões de consumidores, é vista por Adorno como sendo um círculo de manipulação retroativa das necessidades. Segundo ele, as pessoas não gostam, mas sim precisam da cultura de massa, que seria uma espécie de mercadoria para necessidades psíquicas geradas pelo sistema. Essas necessidades seriam reforçadas e viciadas pela satisfação ilusória com imagens usufruídas em função de outros objetos, talvez inconscientes. Toda essa estrutura demonstra o caráter compulsivo da sociedade alienada de si mesma.

A idéia de “necessidade social dos produtos”, tão salientada pelos diretores gerais da indústria cultural, não encontra respaldo nas teorias de Adorno, na medida em que o filósofo deixa claro o nível de desconsideração dos autores a respeito das necessidades específicas do público. Os produtos são oferecidos de acordo com as exigências da própria indústria e do sistema de exploração vigente. Então, a padronização e o baixo nível dos produtos culturais não são resultado de grande demanda ou do desejo do público, mas sim da vontade dos mais poderosos economicamente.

O instável equilíbrio entra a oferta e a demanda em uma sociedade de mercado, para Adorno, não é motivo para a causa de uma produção daquilo que o público necessita pelo menos aparentemente. Com a criação de produtos referentes ao trágico, o indivíduo encara forças muito mais poderosas do que ele, sendo apenas uma reprodução da ideologia dominante. Segundo Adorno, a indústria cultural consegue impor uma sobrevalorização de suas mercadorias em função de sua inutilidade, enobrecendo o supérfluo, mostrando a intensa falta de finalidade para tais gêneros culturais.

Lara Aguiar é jornalista, pós-graduanda em Filosofia pela Universidade Federal de Ouro Preto e acadêmica de Letras Vernáculas. Declara-se “rascunheira” nas horas vagas.

 
 

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