Hermes Fontes

Hermes Floro Bartolomeu Martins de Araújo Fontes
Compositor e poeta brasileiro, nasceu em Boquim, Sergipe, a 28 de Agosto de 1888 e suicidou-se no Rio de Janeiro a 25 de Dezembro de 1930.
Compositor. Poeta. Filho de lavradores. Formou-se em Ciências Jurídicas e Sociais no Rio de Janeiro, para onde se mudou com a ajuda do governador da Província de Sergipe. Foi oficial de gabinete do Ministério da Viação durante o governo de Washington Luiz. Poeticamente parturejado e amamentado em pleno parnasianismo, sua audácia verbal e sua técnica sintática como que experimentalizam o soneto, prefigurando algo do modernismo que se aproxima. Tematicamente não é tão arguto na filosofia quanto Bastos Tigre, nem tão primoroso no discurso quanto o outro Fontes (Martins), que não é da família. Mas trabalha o enjambement no alexandrino com tal complexidade que pode ser enquadrado entre os melhores joalheiros do soneto nacional.

Obras:
Em 1908, publicou "Apoteoses", sua primeira obra poética. Em 1913 publicou "Gênese", seu segundo livro de poesias. No mesmo ano, teve gravada pelo cantor Roberto Roldan na Odeon a modinha "Constelações", parceria com Cupertino de Menezes. Colaborou com o jornal "O Fluminense", de Niterói (RJ), e (...)

Discografia:
Constelações (c/ Cupertino de Menezes) • Luar de Paquetá (c/ Freire Júnior)

Fortuna crítica:
• AZEVEDO, M. A . de (NIREZ) et al. Discografia brasileira em 78 rpm. Rio de Janeiro: Funarte, 1982.
• EPAMINONDAS, Antônio. Brasil brasileirinho. Instituto Nacional do Livro. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1982.
• MARCONDES, Marcos Antônio. (ED). Enciclopédia da Música popular brasileira: erudita, folclórica e popular. 2. ed. São Paulo: Art Editora/Publifolha, 1999.
• SEVERIANO, Jairo e MELLO, Zuza Homem de. A canção no tempo. Volume 1. Editora: 34. São Paulo, 1997.

PERFEIÇÃO

Tanto esforço perdido em ser perfeito!
Em ser superno, tanto esforço vão!
Sonho efêmero; acordo e, junto ao leito,
a mesma inércia, a mesma escuridão.

Vejo, através das sombras, um defeito
em cada cousa, e as cousas todas são,
para os meus olhos rútilos de eleito,
prodígios de impureza e imperfeição!

Fico-me, noite a dentro, insone e mudo,
pensando em ti, que dormes, esquecida
do teu amargurado sonhador...

Ah, Mas, se ao menos, imperfeito é tudo
salve-se, às mil imperfeições da vida,
a humilde perfeição do meu amor!

TODOS TÊM SUA GLÓRIA...

Ó glória, glória triste, excelsa glória,
irmã do amor e da felicidade!
Visão miraginal da trajetória
curta de nossa curta Mocidade!

Só se logra alcançar-te, à merencória
luz, quando a alma de ti se dissuade
e não és mais o que és, pois a memória
do que foste, é que é glória, de verdade.

Ó glória que eu julgava inatingível,
se és apenas a fama, e o amor é apenas
a posse corporal de uma mulher...

Que vos valeu penar as grandes penas
de sonhar que eras quase um impossível,
se és um sonho ao alcance de qualquer?!

A FORMIGA

E dizer-se que não tens nervos, ó nervosa,
ó vibrátil, sutil, minúscula formiga!
Dizer que não tens alma! E haverá quem o diga,
se o teu exemplo toda gente o imita e glosa?!

Tão pequenina és tu, e, astuta e laboriosa,
arrastas uma folha — e a arrastada te abriga...
E o requinte que pões em roer o grão da espiga?
E a perícia em bordar as pétalas da rosa?

Passas, eu me pergunto onde o melhor motivo:
se — Atlas — erguer nas mãos e nos ombros a Esfera,
se — formiga — arrastar um ramo nutritivo;

Ou — sonhador que a própria angústia retempera —
dia e noite viver, qual dia e noite vivo,
ao peso imaterial de uma triste quimera...

A PULGA

Um sinalzinho preto em teu colo de neve:
Examino se é próprio, ou fingido a nanquim...
Mas o pontinho escuro anima-se; e, ágil, breve,
Salta aqui, salta ali e vem pousar em mim.

Sinto-o no corpo: o inseto, a mais e mais se atreve.
Põe-me um ardor de urtiga em cada poro, e, assim,
Fervo e salto, eu também... Ao seu contacto, leve,
A epiderme é um incêndio, o sangue é um torvelim.

É uma pulga! Tirou-me o bom humor e o agrado!
— Serena perfeição em que a gente se julga,
Morre num sopro: é grão de pó, miga qualquer...

Quanto orgulho se tem despido e desmanchado,
Por um nada, um nadinha, uma pulga!? É que a pulga
Em astúcia é igual à raposa e à mulher...

BUENA-DICHA

Olhou-me a buena-dicha; olhou-me e disse:
— Amarás. Brilharás e sofrerás.
Eu ia, então, na minha meninice
Inquieta, a cerca de vintênio atrás.

E, se tal por sabê-lo, eu antevisse
O predestino esplêndido e mendaz,
Quis amar, quis brilhar, quis que a velhice
Não me recriminasse de ações más.

Para brilhar, busquei a glória na arte.
Para amar, procurei o bem no afeto.
Para sofrer, levei a cruz e o andor.

Mas, a glória mentiu. Por sua parte,
Mentiu-me o amor, tudo mentiu, exceto
A doce mãe dos imortais — a dor!

LUZ, PÓ

Grão de areia — expressão das últimas verdades.
Constelação — és tu a glória, o fausto, a pompa.
Que importa ao Saara, grão de pó, se no ar te evades,
dês que no alto uma irial constelação irrompa?!

Que hinos soprais, tufões, na vossa hercúlea trompa
— poeira de sons que voa aos mundos a onde vades?
Clarão — poeira de luz! que tem que o Pó corrompa
o fulgor das paixões, o brilho das vaidades?

Astro — és um grão de areia escalado na Altura!
À refração do Sol, é um sol no saara ardente
um átomo de pó que à areia se mistura!

Orgulho humano! a quanto aspiras e quanto ousas!
— Na inconstância da Vida está constantemente
a comunhão vital entre todas as cousas...

ADÃO (caricatura)

Da loura Albion... da pálida Cipango...
etíope ou árabe, o antropopiteco
veio e, dele — ridículo boneco —
o Homem — deus de Cancan, de jongo e tango...

Veio... E houve um seio púbere... um morango
tentador, abotoando-o... E, de eco em eco,
corre — eureca! a esbofar-se: "eu peco, eu peco..."
Arquimedes futuro — o orangotango.

Fecham-se logo os céus, em camarinha:
Pã, deus selvagem, voluptuoso e bruto,
enlaça Vênus — deusa-flor marinha.

Unem-se a ninfa excelsa e o monstro hirsuto:
O resto... somos nós — criação mesquinha
do erro sensual daquele ruim minuto...

EVA (alegoria)

Eva — te chamam. Eva — ou qualquer seja ou fosse
o teu nome — o que importa, é a ventura de haveres
nascido, alva, floral tão límpida, tão doce,
para glória de Deus e alegria dos seres.

No túmulo ou no altar, no tálamo ou no alcouce,
tudo florescerá por onde floresces!
Ao se formar teu sexo — Eva triunfal — formou-se
o sobrenatural delírio dos prazeres...

Pôs-se-te na alma tudo: o paraíso e o inferno;
a pureza infantil da fé e da esperança,
a efêmera vaidade, o sacrifício eterno...

Leoa e pomba — não há tão feroz e tão mansa!
Pomba — não lhe esfaçais o idílio suave e terno!
Leoa — não lhe assusteis o filho que descansa!...

SENSAÇÕES

Sensações de tristeza ou de alegria,
dá-no-las a Alma, como ideal produto
das impressões vitais de cada dia
engalanado em luz, sombreado em luto.

Pode o Espírito estar tranqüilo e enxuto:
mas, se os olhos se inquietam, à porfia,
a lágrima, que esponta, é já o fruto
das sensações... É o coração que expia...

E, ao transcorrer desse diamante bruto,
a Vida, toda, se consubstancia,
tal, um século, às vezes, num minuto!

Ilumina-se, assim, a Alma sombria:
— o que sinto, olho, gosto, palpo, escuto...
— sensações de tristeza ou de alegria...

LUAR

Noite ou dia?! Ilusão... É noite. A Natureza
tem um pudor de noiva, ao beijo de noivado:
sonha, velada por um véu diáfano, e presa
de um sonho branco, um sonho alegre, iluminado.

A Lua entra por toda a parte, clara, acesa...
Desabrocham jasmins de luz, de lado a lado...
E o luar — vê bem: — dirás que é o óleo da Tristeza
diluído pelo céu... pela terra entornado...

E há nos raios da Lua — a um tempo, hastes e lanças,
corações a sangrar feridos do infortúnio,
flores sentimentais do jardim das lembranças...

A ave do Sentimento as asas bate e espalma:
e, enquanto se abre aos céus a flor do Plenilúnio,
abre-se, dentro em nós, o plenilúnio da Alma...

TERRA IMORTAL

Flora! a Vida a noivar, em núpcias voluptuosas,
na antecâmara verde-azul, aos céus expansa!...
Flora, vegetação... Flora da Alma — Esperança,
que o Amor — flora imortal dos corações, desposas...

Flora... A Terra, no cio, os cabelos destrança,
ourejados de orvalho e coroados de rosas...
E o Céu abre sobre ela as asas luminosas
e no arco-íris lhe manda um abraço de aliança...

Cibele, engrinaldada em véus rosicolores,
contra os beijos de luz, que, do alto, o céu derrama,
solta beijos sensuais de gorjeios e flores...

Idílio. O sol é quase um coração em chama.
Flora!... É a vida, a esperança, a rir nos teus verdores
e a dizer pela voz dos teus perfumes — "Ama!"

UVA

— Pérola vegetal do escrínio de Pomona,
Rima de ouro de um poema inviso — o Paladar —
bem haja, Uva, a estação que o ovário te sazona,
para a mão te colher e o lábio te sugar!

Gota de água que foste — espumejaste, à tona
da parreira — esse rio aéreo (a Flora é o mar)...
Beijo — cristalizaste em fruto, que impressiona
pelo gosto sutil, pela cor singular.

Dentro em teu beijo oval, há um mundo pequenino:
um mundo de sabor, em que se dissimula
a consciência da falta, o ódio cego e vilão.

Pílula do Demônio — és tu, cujo destino
é excitar-nos a sede, iludir-nos a gula
e pontuar — pingo verde — a Embriaguez e a Traição...

RIO

— Bojuda serpe, dócil crocodilo —
coleia o rio... Atrás, uma montanha
figura um cavaleiro a persegui-lo
de longe... E, distanciando-se, o acompanha.

Adiante, o bosque todo se emaranha
para deter-lhe o curso e constringi-lo:
o rio, surdo e cego à ameaça estranha,
vai correndo, monótono e tranqüilo...

Abre-se o abismo ali para tragá-lo:
e o rio, dorso ondeante ao beijo eóleo,
salta, a crina a flutuar... régio cavalo!

E ancho, e triunfante, como um rei no sólio,
avança para o Mar, quer dominá-lo...
E o Mar, que o espera, num bocejo, engole-o...

DIÁRIO DE UM SONHO (III)

Meu sonho de ontem foi assim: havia
um templo. Deuses, príncipes, lá dentro.
— Não entram os humildes... Todavia,
todas as forças, para entrar, concentro.

Tomo de um anjo as longas asas, e entro.
Há festa. E, que fidalga companhia!
E, junto ao altar-mor, ali, no centro
— Ela... tão linda e simples... quem diria?!...

— Ela, dando milagres e favores,
graça e indulgência aos príncipes... Ai! nisto,
olho-a... E, depois... meus olhos impostores!

Olho-a, e a graça do seu olhar... concede-a
à imagem sereníssima de Cristo...
— Ah! se não fosse Cristo... que tragédia!

DIÁRIO DE UM SONHO (IV)

É de outro artista — não me lembra o nome —
que o Poeta, no seu sonho de arte, é alguém
à parte... é como a aranha, que consome
todo o tempo, na rede a que se atém.

E, alheio ao próprio tempo, que carcome
o brilho às cousas, séculos além,
eu ia — aranha — superior à fome
e à sede, e, aranha, me sentia bem...

Na solidão, como num canto escuro,
tecia a teia rósea do Futuro,
quando me entraste, a rir, tonta de sol...

E, de então, sem te ver (e ver-te é raro!),
não sei tecer... só sei tecer no claro,
não sei tecer sem ti meu aranhol...

DIÁRIO DE UM SONHO (VI)

Há quanto tempo a sonho — a mim mesmo o pergunto.
Há um ano, há dois, há três, há muitos anos?... Minto...
A origem desse Sonho, e o percurso, e o transunto,
é um dédalo, é um enigma, é um caos, é um labirinto...

E esse amor já vai sendo o meu contínuo assunto...
Outra coisa não vejo, outra coisa não sinto.
De alguns tempos aquém, vive em meus olhos, junto
do meu espírito, entre o sentimento e o instinto.

A princípio, sonhei-a irmã... Depois, sentia
que a amizade era amor... E sentia a incerteza
de entregar-lhe a alma, cheia, e trazê-la, vazia...

Abro-lhe o coração como uma igreja acesa...
Amo-a, desejo-a, sim... mas toda esta alegria
é uma intensa, uma extensa, uma imensa tristeza!...

SONHO MORTO

Amanhã, quando o Sonho em que, a rir, agonizo,
ai! de mim! for a só realidade de um sonho,
realidade infeliz! será, talvez, preciso
morrer... Pois venha a Morte. É vir que eu nem me oponho!

Venha a Morte. E, afinal, às vezes, a idealizo
no seu luto profundo, infinito e medonho.
Venha-me! E, antevisão terreal do Paraíso,
Morte Libertadora, é assim que te suponho!

Vós outros não sabeis o que é arder em sigilo
por um sonho, antevê-lo, e, em pleno engano, em pleno
sonho, ver outra mão realizá-lo, atingi-lo!

Nem sabeis que é melhor morrer, forte e sereno,
do que ter de, alma em febre e rosto assim tranqüilo,
gota a gota, beber esse doce veneno...

HUMILDADE...

Rolar... girar... O Mundo rola e gira
constantemente, em torno de seu eixo.
Rolam astros e tempos... Eu me deixo
rolar, também, sem ambição nem mira.

Cantem outros de amor ou rujam de ira.
Eu não canto, nem rujo... nem me queixo...
e vou, mágoas a fora, como um seixo
vai, rio abaixo, na água, que suspira.

Vai, rio abaixo, na água: e a água o converte
em gota, seixo líquido... E, antes isso
do que ser pedra grande — bruta e inerte!

Antes ser livre seixo, à correnteza,
que ser bloco de mármore... ao serviço
de Sua Majestade ou Sua Alteza...

ÁGUIA FERIDA

Meu Ideal, és uma águia, dessas grandes
águias que se aventuram céus além...
E, tanto as asas, dia a dia, expandes,
que elas te envolvem, te alçam, te sustêm!

Não te assombram os Alpes, nem os Andes,
nem o Profundo, nem o Imenso, nem
céu, nem oceano: que, ante quem te abrandes,
e a quem te curves, só existe Alguém...

Após tantas impávidas subidas,
doem-te as asas... trazes-las despidas
de plumas... asas que não mais voarão...

Voltas, desces... E há um mal que te denigre...
Águia! quem te feriu? o leão?! o tigre!?
— Coisa pior: foi a Desilusão...

VOLÚPIA...

Cede o corpo, esgotado, à alma, transida.
— Vim da volúpia cega de um casal!
E, assim que entrei a compreender a Vida,
devo, à volúpia só, todo o meu mal.

Devo-lhe: é febre sempre a arder; ferida
sempre a sangrar... Volúpia imaterial
de alcançar a ventura apetecida,
seja, ao menos, num ápice, afinal!...

Lindos ideais que, outrora, ilumináveis
meus olhos, eu senti por vossa glória
uma excelsa volúpia salutar.

Mas, frustrados meus sonhos mais amáveis,
só me resta, na vida transitória,
a serena volúpia de chorar...

MESTRE SILÊNCIO

É a ti, Silêncio, amigo e mestre! é a ti que devo
a glória! a ti e à tua esposa, a Solidão!
Pois, indiretamente, é teu todo esse enlevo
das flores que ando a abrir, dos frutos que elas dão!

Procuro em ti, contigo, o quatrifólio trevo
da Arte! tudo o que penso, é ouro do teu filão.
Silêncio, vêm de ti o que falo e o que escrevo,
meu professor de calma e de meditação!

Paraninfas o idílio oculto à alma que cisma;
paraninfas a fé, no êxtase religioso
e elaboras a luz no sonho, a luz do Ideal!

E a luz é mais cambiante e irial sob o teu prisma;
e a paz é mais feliz... ó Silêncio! ó repouso
dos nervos! ó crisol da Vida-Espiritual!

A FELICIDADE

Existe. Eu a conheço. Ouço-a e lhe falo: fito
os meus olhos nos seus, e, exaltando-a, me exalto.
Vou tocá-la, porém... — há entre nós o infinito!
— foge o horizonte, o céu esfuma-se em cobalto...

Minha Felicidade!... hei de atingi-la!... salto
muralha por muralha, ergo-me, vôo, agito
todas as asas da Alma, ando, de sobressalto
em sobressalto, atrás desse enganoso Mito...

Antes de te sonhar, vi-te, e, antes de buscar-te,
vieste... mas, para amar-te, urge-me que descentre
o Ideal para a Ambição... E ai! dos meus sonhos de arte!

Ai! de mim que sonhei ser feliz, e deponho
minha felicidade e minhas glórias, entre
a guilheta da Vida e a redenção do Sonho!...

A ODISSÉIA DO VERSO

Vieram da fonte sensitiva e casta
do Coração: filtraram-se em requinte,
nos centros cerebrais: são versos... basta.
É estrofá-los em luz, por conseguinte.

É escrevê-los em fogo, em tom que os pinte,
voz que os declame... E a língua mal se arrasta!
E a pena extrai-lhes a expressão seguinte
que os fixa nos papéis da minha pasta...

Leva-mos o impressor, a publicá-los.
Lá se vão os meus versos... E eu sucumbo,
ao despedir-me da alma, entre ais e abalos...

E, ante a máquina, agora, o olhar descerro:
— vejo o meu Sonho transformado em chumbo!...
— vejo a minha Arte reduzida a ferro!...

FOLHA RUBRA

Meu ser é a comunhão de dois seres diversos.
Dois seres — um, a Carne, outro, o Espírito... E, assim,
esses dois seres — dois pequenos universos —
para castigo meu, se unificaram em mim.

Carne e Espírito... Enquanto o Espírito faz versos
e sonha, a Carne, onde arde o sangue de Caim,
forceja, ousa remir os instintos, imersos
neste letargo, nesta escravidão sem fim.

É o Espírito contra a Carne... A ânsia, a nevrose!...
E eu, morrendo a esperar que a alma se desencarne
e se volatilize a essência em novo ser!...

E o corpo, livre da alma, estremeça, ame, goze
a Carne pela Carne e para a Carne... a Carne
até se decompor e desaparecer!...

MORAL

Bocas que contra mim e contra a minha
suposta ingratidão, Ódio, desatas,
são para mim — qual delas mais mesquinha —
são para mim, por sua vez — ingratas.

Guardam-se nesse afã nomes e datas:
bem de ontem, posto à face, hoje espezinha.
— Mão que nos afagaste e nos maltratas,
só para o afago queres louvaminha...

E tem razão quem faz o bem, é exato.
E tem razão o favorito, em suma:
— são ingratos os dois, nenhum é ingrato...

Dessa verdade efêmera ressuma
que a moral é de todos, ou, de fato,
nunca a moral é de pessoa alguma.

FLOR DE CHAMA

Hastil branco a florir em luz e flama, esguio
lírio seco, que o vento aniquilar promete —
há uma vela a esvair-se... E isso, deve-o ao pavio,
que é a sua alma, que é o eixo, a arder, do espermacete.

Mal o pavio esplende, ei-la que se derrete:
chama — parece estar tiritando de frio...
É uma criatura humana, alanceada das sete
dores da Virgem-mãe, lagrimejando, a fio...

É um ser anímico esse objeto inanimado:
— arde o pavio, e, entanto, o que se esvai é a cera...
— dói a alma, e o corpo é que se faz mortificado...

É uma agonia humana... Um suor febril escorre...
E, tal o humano ser desmaiara e morrera,
a vela luz... reluz... vai desmaiando... morre.

BOÊMIO

Delícia e engano bom que é, para tantos,
a Vida — para mim, é, nada menos
— a conjura de todos os quebrantos,
— a ruim mescla de todos os venenos...

Ou, pela dor dos meus contínuos trenos,
praz ao céu eleger-me um dos seus santos,
ou é, talvez, de humildes e pequenos
não ter glórias, prazeres, nem encantos.

A vida é um bem, e é um mal, que se biparte:
se uma lágrima flui nos olhos, uma
alegria dos lábios ri, destarte!

Mas para mim a vida é só e em suma
— cumprir deveres mil em toda a parte
e direitos não ter em parte alguma...

A MENTIRA

Nossa genial mentira — a Vida Humana —
mentir é claudicar, mentira é crime:
e a verdade — luz má, que desengana,
dizem-na aurora santa, que redime.

Boca falaz, traidora, alma leviana,
juram pela Verdade alta e sublime:
a Verdade é água límpida que sana
a Mentira, que é lodo e só deprime.

Mas, se a mentira bruta se converte
no sonho ou na ilusão, nossa alma gira
em torno dela, atônita e solerte.

Mente-se a si, quem à Verdade aspira.
Tudo mente: alma viva, corpo inerte,
a glória, o amor, a vida... que mentira!...

A VAIDADE

Vaidade, eixo do Espírito! és o centro
dos círculos concêntricos da Vida!
Vejo, sempre que os teus arcanos entro,
a alma humana, a alma inteira, refletida...

Que vale a Glória, e o Amor, em que concentro
toda a minha existência mal vivida?...
— Vaidade! entras o ser humano a dentro...
..dás-lhe orgulho e ambição para a subida...

E o homem, se mais tarde te sente, mais te nega:
a vaidade, nos outros, é um pecado,
pois não na vê em si... que a alma está cega!

E a Vida, a um tal espelho, é um bem, mau-grado!
— Vaidade! o Amor que por aí se alega,
é só vaidade... é amor de ser amado...

A INVEJA

Dizem-te indigna e má, pintam-te feia e hirsuta.
Dão-te unhas de dragão, jetaturas de mocho.
És veneno de ofídio, és vitríolo, és cicuta,
o ódio negro, a ira rubra, o desespero roxo...

Não! Para mim não és o monstro vesgo e coxo
que vive a conspirar nos vãos de cada gruta,
à luz crepuscular, num clarão dúbio e frouxo,
contra a Idéia, imortal e a Bondade, impoluta.

Não! não és vingança, a insídia, o crime-corso:
tua irresignação é núncia de esperança,
há persistência e fé na ânsia do teu desforço.

E, assim, na emulação da vida transitória,
teu estímulo é a guerra, egoísta, que nos lança
à reivindicação da Justiça e da Glória.

PÊNDULO

Minha vida tem sido a de um pêndulo... tanto
fez a Dúvida em mim seu melhor servidor!
Sempre hesitaste — novo Hamleto ou Apemanto —
raio, à míngua de luz, prisma, à falta de cor.

Sou um pêndulo... sempre a vacilar... Enquanto
o Homem ama e a Mulher finge que entende o Amor,
eu hesito, eu descreio, eu me fico em meu canto,
eu não quero emigrar, seja para onde for!

Ride, vós, que viveis, certos de alguma cousa!
ride de mim, que sou a estulta mariposa,
— corpo faquirizado... alma sem diretriz...

Ride, sim, de quem vive, à vida intensa e acesa,
ruminando, em silêncio, incerteza e incerteza,
na certeza de ser, para sempre, infeliz...

DOIS DESTINOS

Somos, talvez, da mesma essência milagrosa,
de um espírito só, em dois corpos disperso.
Que é o que, afinal, iguala uma rosa a outra rosa?
o aroma... É a luz que iguala os astros, no Universo...

De um rádio astral, de algum divino embrião, diverso
e uno em alma, se fez, por mão maravilhosa,
— em mim — para lutar, o gigante do Verso!
— em ti — para vencer, o gigante da Prosa!

E a Sorte uniu-te ao meu teu Sonho excelso e arisco:
— orbes do mesmo engaste, águias do mesmo cume
e cordeiros-irmãos de rebanho e de aprisco...

Mas o Destino pôs-se a rir do meu presságio:
— tua vida — em contínua ascensão se resume!
— minha vida — ai! de mim! em perpétuo naufrágio!

GLÓRIA?

Glória, ironia má! — Falta-te o pão em casa,
falta-te na alma a fé, tudo te falta, em suma!
Tiritas, e não tens lareira: que a tua asa
abafou e desfez a tua chama em bruma...

Tens sede, e o Mar te nega uma gota de espuma.
Queres luz, e não tens uma chispa de brasa:
no entanto, o Sol, como um turíbulo, defuma
e doura as coisas e áureo incenso no ar transvasa!...

Glória... mas, para que, se o coração fraqueia,
se o corpo é um muladar de privações constantes
e a consciência reflete a desventura alheia?!

Glória... e não tens, sequer, o sossego preciso!
— Ironia e ilusão de todos os instantes...
— Canaã dos imortais... Maldito Paraíso!...

GLÓRIA!

Glória é a expressão de Deus, sobre a miséria humana.
É o Céu, arqueado, em loa aos milagres da Terra.
Glória é ressurreição, sobrevivência... Emana
do alto: que só a Altura as alturas descerra.

Árvore, ó cruz verdeal do píncaro da serra!
Ó cruz das catedrais de que o torreão se ufana!
glória é a repatriação da alma que se desterra
no Sonho, para o Sonho... O sonho é a glória... Hosana!

Ser alma é professar na Dor. — Calvário ou Pindo,
dor pela Fé ou pelo Ideal — a glória é o pouso,
culminância a que, Deus e Poeta, vão subindo:

Que o só heroísmo — o só, verdadeiro e glorioso —
é o de sofrer cantando, é o de morrer sorrindo
para não perturbar o bem do alheio gozo...

IN EXCELSIS!

Glória a Ti, que és perfeita em quanto, humanamente,
possa alguém atingir à perfeição moral!
Glória! Ao desabrochar dessa alma redolente,
o incenso do meu culto, o hino do meu ritual!

Glória a Ti, só a Ti, pois é de Ti, somente,
ó Expressão Natural do Sobrenatural,
e é só em Ti, que encontro a invisível semente
com que, assim, frutifico em pensamento e ideal!

Glória, em Ti, alma-irmã! Milagre, que conferes
a todos os que atrais e a mim, que repudias,
a alta revelação da maravilha que és!

Glória, em Ti, ao Amor! Glória, em Ti, às mulheres!
A Ti, que reduziste a glória dos meus dias
a degrau do teu Sólio, a escrínio dos teus pés!...

 
 

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