Genolino Amado

Genolino Amado, jornalista, professor, cronista, ensaísta e teatrólogo, nasceu em Itaporanga, SE, em 3 de agosto de 1902, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 4 de março de 1989. Eleito em 9 de agosto de 1973 para a Cadeira n. 32, sucedendo a Joracy Camargo, foi recebido em 14 de novembro de 1973, pelo acadêmico Hermes Lima.


Iniciou sua educação na província natal e fez humanidades no Colégio Carneiro, em Salvador. Aos 17 anos, ingressou na Faculdade de Direito da Bahia, integrando a turma de calouros que iria dar ao país vários escritores e mestres do Direito, tais como Hermes Lima, Pedro Calmon, Nestor Duarte e Adalício Nogueira. Completou o curso jurídico no Rio de Janeiro, onde se diplomou em 1924.

Pouco depois da formatura foi para São Paulo, com o propósito de fazer carreira na advocacia. Contudo, sua autêntica vocação levou-o ao Correio Paulistano, onde figurou entre os seus principais redatores, tendo sido indicado por Menotti del Picchia para substituí-lo na crônica diária daquele prestigioso matutino. Surgiram, assim, as primeiras páginas de um novo autor, que se assinava Geno, as quais mereceram um entusiástico artigo de Agripino Grieco, o que causou surpresa, pela índole demolidora do crítico.

Essa atividade na imprensa foi interrompida com a sua nomeação para Chefe da Censura Teatral e Cinematográfica de São Paulo, em começo de 1928. Genolino Amado não se afastou, porém, das rodas intelectuais da Paulicéia, convivendo com os modernistas de maior relevo, sobretudo Oswald de Andrade, Menotti, Cassiano Ricardo e Cândido Motta Filho. Foi também nessa fase que se ligou intimamente a Galeão Coutinho, Brito Broca, e, logo depois, Orígenes Lessa. Perdido o cargo com a revolução de 1930, retornou imediatamente ao jornalismo, com posição de destaque nos Associados, dirigindo o Suplemento Literário do Diário de São Paulo e publicando cotidianamente crônicas no Diário da Noite. Ao mesmo tempo iniciou a sua colaboração na emissora Record, atendendo a convite de César Ladeira, seu jovem colega de redação, que se transformara repentinamente em locutor popularíssimo e que, depois, no Rio, tanto contribuiu para o êxito singular de Genolino Amado como cronista radiofônico.

Voltando para o Rio em 1933, tornou-se redator-editorialista de O Jornal; foi nomeado professor de curso secundário da então Prefeitura do Distrito Federal, na grande reforma da instrução pública realizada por Anísio Teixeira; e escrevia para a Rádio Mayrink Veiga, na interpretação de César Ladeira, as Crônicas da Cidade Maravilhosa, cujo sucesso sugeriu a André Filho a composição da famosa marcha que se tornaria o hino da Guanabara. Na mesma emissora, apresentou por longo tempo a Biblioteca no Ar, que por duas vezes obteve prêmio como o melhor programa cultural do rádio brasileiro. Posteriormente, obteve êxito na Rádio Nacional, com a Crônica da Cidade, com extraordinária audiência.

Absorvendo-se na imprensa e no rádio, só em 1937 Genolino Amado publicou o seu primeiro livro, Vozes do mundo, em que estuda grandes figuras das letras estrangeiras. O êxito da estréia levou o autor a reunir outros ensaios, lançados em suplementos dominicais, no volume Um olhar sobre a vida, em 1939. Seguiram-se Os inocentes do Leblon (1946) e O pássaro ferido (1948), coletâneas de crônicas publicadas na imprensa. Ao mesmo tempo, traduziu romances e peças de teatro. Estreou ele próprio como autor, em 1946, com Avatar, comédia representada não só no Brasil como no estrangeiro e adotada na Academia Militar de West Point como livro de leitura para os cadetes americanos. A segunda peça, Dona do mundo, foi apresentada em 1948 e laureada com a Medalha de Ouro da Associação Brasileira de Críticos Teatrais.

A carreira de magistério estendeu-se ao nível superior, como um dos mestres que iniciaram o Curso de Jornalismo na Faculdade Nacional de Filosofia e Letras.

Afastou-se das atividades literárias quando passou a exercer, no último governo de Getúlio Vargas, em 1954, o cargo de Diretor da Agência Nacional. Nomeado a seguir Procurador do Estado da Guanabara, por longo tempo se concentrou nas letras jurídicas, exarando inúmeros pareceres, muitos dos quais selecionados para publicação da Revista da Procuradoria Geral. Em todo esse período, só apareceu como um dos tradutores de A minha vida, de Charles Chaplin. Retornou à literatura em 1971, com O reino perdido, em que evoca a sua vivência como professor.

Após a publicação dessa obra, candidatou-se à Academia Brasileira de Letras, atendendo a apelo de vários membros da instituição. Após três meses de labor, em 1977, publicou Um menino sergipano, seu segundo livro de memórias, limitado aos anos transcorridos em Itaporanga, sua cidade natal, tão poeticamente evocada, também, em História da minha infância, por Gilberto Amado.
Obras: Vozes do mundo, ensaios (1937); Um olhar sobre a vida, ensaios (1937); Os inocentes do Leblon, crônicas (1946); O pássaro ferido, crônicas (1948); O reino perdido, memórias (1971); Um menino sergipano, memórias (1977);Teatro: Avatar, comédia (1948); Dona do mundo, comédia (1948).

O PONTO FATAL

Certa ocasião quase aderi à desavença do velho Campos. Foi naquele dia em que o maldoso Colombo me atrapalhou na Escola e até fez perigar a salvação de um inocente.
O inocente pertencia a um grupo de assustados guarda-livros sem diploma profissional. Assustados porque lei ou decreto, que finalmente se cumpria, lhes impôs a escolha cruel: ou provas de habilitação ou perder o meio de vida. Porque mantinha curso oficial de comércio, ficou a Amaro com a incumbência dos exames. E que exames! Além de escrituração mercantil e segredos contábeis, incluíam matérias ginasiais.
Assim, ao sobradinho das meninas foram comparecendo, bem nervosos, examinandos grisalhos, de pouco saber e muitas rugas. Alguns, gorduchões, se espremeriam nas carteiras das pequenas. Carteiras iguais às das suas filhas, ou talvez das netas, noutra escola qualquer.
Veio a designação dos examinadores. Dois em cada banca. Eu, com o Professor Balbino de companheiro na de História e Geografia. Afinal, uma reunião dos mestres indicados. E parecendo exprimir a idéia de todos, o bom Professor Milton:
Precisamos facilitar de qualquer forma os coitados. Na fisionomia deles a gente vê a angústia. Tem anos e anos de serviço, com os empregadores satisfeitos. É o que atesta de sobra a sua competência e dedicação. Melhor do que um diploma de guarda-livros. Nas provas da Amaro, exigir muito, mesmo pouco, seria demais. Assim penso. E vocês, colegas?
Vozes e vozes de apoio. Só Balbino é que não piou: Mas quem cala consente concluí, confiante. E a confiança cresceu porque alguém:
Que tal reduzirmos o número de pontos? Bastariam dez... Que acham?
De acordo falou Balbino, iniciando as adesões.
Ufa! Tirei um peso da consciência. Se Balbino, o rigor em pessoa, concordava, a coisa ia bem. Peguei o pião na unha:
Perfeito, colega. Em nosso caso, cinco pontos de Geografia e cinco de História.
Não, não! Pelo que entendi, têm de ser dez por matéria.
Milton socorreu-me.
Entendeu mal, Balbino. Dez por banca. É uma só a de História e Geografia. Seu companheiro está certo.
Um bom sofisma... que não pegou. Argumenta daqui, argumenta dali, afinal conciliação à maneira getuliana: dez de Geografia balbínica, cinco de História genolínica. E História a começar dos tempos modernos. O homem aceitou de cara feia. Foi então que um dos facilitadores:
Vocês discutiram à toa. Que importam dez ou cinco pontos? Ninguém será reprovado...
Isso provocou muito sim e um não. O da Geografia:
Que exagero! Facilitar, admito. Aprovar de qualquer modo, tenham paciência. . . Não é do meu feitio.
Mas, Balbino! ponderou Mílton. É um pessoal velho, cansado, receoso de perder o emprego. Não são meninas que decoram sem esforço, que aprendem com facilidade. Alguns já têm a cabeça branca. E têm família...
Reconheço que é duro. Sofrerei, se tiver de reprovar. Sabendo um pouquinho que seja, passa. Não sabendo coisa nenhuma, reprovo. Questão de princípio. Sou assim e não mudarei.
Veja bem, colegatornou Milton. Iremos examinar um velhote com dezoito anos de guarda-livros na Rua do Acre. Esse velhote me confessou que já lhe fugiu da cabeça tudo quanto aprendeu no tempo de moço. E reaprender, não consegue. Por que exigir que ele responda certinho quem proclamou. a República ou se o rio Sena é francês, não inglês? O velho faz bem a escrituração de cebola e bacalhau no empório de secos e molhados.
Serei benevolente, mas só até certo ponto. Não prometo aprovação além do razoável.
Inseguro no andar, claudicando um pouco, Balbino era seguríssimo nas convicções. Admirável professor pelo saber e devotamento ao magistério, via mais o ensino do que a vida.
Mestre por acaso, via eu, principalmente, a sorte dos examinandos. E via com aflição aquele grupo de aflitos. O mais temeroso me pareceu o da rua do Acre. Assim, na véspera do primeiro exame, o de Geografia, fiz-lhe a pergunta:
Então? Preparou-se?
Acredito que passarei, Professar. É que minha paixão sempre foi viajar. Não podendo, acostumei-me a ver os mapas. Boa mania, porque espero que me ajude no exame. Na História é que estou fraquinho demais...
Realmente, os mapas o socorreram. Fez boa escrita, não foi muito ruim a oral. Na Geografia, outro é que me custou salvar. Um alagoano quarentão, de testa estreita e bigodinho espinhento, quase não escreveu. E o que escreveu, Nossa Senhora! Atribuí 7, Balbino 2. Antes da oral, chamei-o à parte e:
Se não souber, fique em silêncio e espere minha ajuda. Não responda sem saber, que é pior. Veja lá, hein? Não se precipite. E o alagoano precipitava-se. Feita qualquer pergunta, dizia sem vacilações a tolice que lhe viesse à mente.
A cidade principia por um B, ouviu? A capital da Suíça é...
Bruxelas, Professor.
Ainda bem que Balbino examinava outro. Engoli, fui adiante:
O rio São Francisco tem a sua nascente...
No Paraná veio em cima da bucha, na mais sadia e descuidosa ignorância. Meu companheiro, que acabara de argüir outro sofredor:
Que tal este seu 7 indagou num sussurro.
Saiu-se bem? Dei 8. O colega quer examiná-lo ou acompanha a nota?
Balbino confiou, acompanhou. Salvou-se uma alma do purgatório naquele dia. Mas, na manhã seguinte, manhã fatal, o problema dos problemas o velho que se confessou fraquinho, fraquinho, no exame de História. Os mapas não o ajudariam. Sorteio, ponto l: Descobrimento da América. O melhor de todos, tão bom que me parecia tirado pelo deus protetor dos guarda-livros. Respirei. Vi, porém, na carteirinha de garota, o velho com os olhos no ar, a caneta inútil na mão trêmula; em branco a folha de papel. E Balbino ali, observador.
Eis que surge um mensageiro do céu, o servente Oséias:
Professor Balbino, telefone. É o Professor Milton.
Pode atender, colega. Fiscalizo pelos dois.
Lá se foi o companheiro. Corri ao examinando, soprei a data, o navegador, duas das naus que saíram da Espanha, suprimi a terceira para não dar na vista, uma referenciazinha veloz aos Reis Católicos. O telefonema do Milton, que nem sei se foi intencional ou coisa do destino, mas sei que foi longo, me tornou profundamente grato a Graham Bell. A prova do velho completou-se no minuto em que Balbino reapareceu, a resmungar:
Esse Mílton é um conversador como nunca vi!
De tarde, seria a oral. Dividi com o companheiro as provas escritas, oito apenas. O resto da manhã aproveitaríamos na leitura. A do velho, passei a Balbino. E depois do apreciá-la, o bom professor:
Boazinha. E vocês a se alarmarem com o homem! Mostrou conhecimento. Darei nove.
Não é muito? Deixe-me ver: Fingi que lia. Dou oito. Chega.
E depois o rigoroso sou eu. Qual!
Senti uma dor na consciência. Que o deus dos guarda-livros intercedesse por mim ao deus dos professores.
Hora da oral. Começou com o alagoano de bigode espinhoso. Ponto 3: Napoleão. Já experimentado, fiel ao conselho que lhe dei, foi prudente. Na pergunta de Waterloo, teve a cautela de silenciar. Vitória ou derrota napoleônica? Viu que apontei para baixo e triunfou, derrotando Napoleão.
Após três outros, que se saíram razoavelmente, sem me dar susto, o velho da Rua do Acre. Enfiou a mão na caixinha. Reapareceu o ponto 1, o mesmo da escrita. E foram dois os descobrimentos o do nauta e o do Balbina. Esse, na maior das canduras:
Muito bem! O senhor teve sorte. Sabe a matéria. Só vou perguntar porque é de praxe. O nosso continente foi descoberto por quem?
O examinando mudo. E o professor:
Por que não diz? Pois, se escreveu... Quem foi?
Nada. Silêncio, o velho nervoso. Balbino já nervosinho.
Por que não me diz que foi Cristóvão Colombo?
Ah, é verdade, Professor. Colombo, sim. Parece que o almoço me atrapalhou a cabeça.
É possível. Mas... a data? Pense e responda.
Mudez ainda. O examinador:
Ora, santo Deus! Diga ao menos a ano. Ou melhorar, basta o século. Se sabia, não posso acreditar que tenha esquecido tudo em poucas horas. E então?
Velho desmemoriado! Copiou o que ditei e esqueceu-se completamente. Balbino resmungou:
Hum! Saí da sala, fui ao telefone...
É insinuação, colega?
Bem, dou o dito por não dito. E o examinando pode retirar-se. Lamento, mas vai receber um zero.
Dei l. Com o meu 8 e o 9 de Balbino na escrita, aprovação raspando com a média quatro-e-meio.
Deixei a Escola em companhia do Professor Milton, que também teve oral nessa tarde. No cafezinho da esquina, desabafei:
Seu Milton, creio que fiz o que não devia. Um professor fornecendo cola a um examinando...
Relatei o caso todo. Mílton sorria.
Pensa que é o primeiro a proceder assim? Pois saiba que agi como você na Escola Mauá. O aluno colando por minha determinação. Minha e do próprio diretor.
Que me diz? Quer contar como foi?
No momento, não, porque estou com pressa e preciso tomar aquele bonde que vem ali. Amanhã contarei a história. É a de dois andares.
Dois andares? fiquei a pensar, quando Milton se foi. Era um engenheiro de muitas construções, além de professor. Coisa estranha!
Que relação haveria entre a cola de um aluno e um edifício de altos e baixos?
O mistério, ou melhor, o engano meu, será o assunto do capitulo a seguir.
(O reino perdido, 1971.)

O REINO PERDIDO

E eu era feliz? Não sei...
Fui-o outrora agora

(Cancioneiro FERNANDO PESSOA)

Em março, alegria, e alegria nova, me acolheu no sobradinho. Que alvoroço, que rumor, naquela manhã, diferente de quantas eu conhecera até então, manhã inaugural, dia com as alunas de volta ao fim das férias, e dia de outras, as calourazinhas, as mais recentes infantas do meu reino. O professor que fui renascia naquela hora, na corte das meninas, que, no portão, no jardim, na escadinha da frente e nas laterais, no corredor, na saleta de Josefa, me reapareciam de uniforme.

Tão iguais, e tão diferentes. Cresceram, mudaram, talvez já houvessem crescido e mudado no curso do ano anterior, com o dia-a-dia a me esconder a transformação. Vi garotas nas gurias da 11 e da 12, afinal minhas alunas. Vi meninotas nas meninas da 21 e da 22, que conduzi do Egito à Guerra dos Cem Anos. Observei um desabrochar de moças nas mocinhas da 31 e da 32, alunas que perdi na derradeira lição dos Tempos Modernos.

Dei com os olhos em Marina e Beatriz. A mesma semelhança; porém não as mesmas Beatriz e Marina. Só permaneciam iguais porque mudaram juntas. Agora bem diversas das que foram na primeira manhã do professor. E Luísa já não se parecia tanto com Dudu, a sobrinha do Major Zé Joaquim, ou talvez já não me impressionasse muito a presença das duas. Vi de cabelos soltos a de tranças, vi esguia a atarracadinha, vi maciez de curvas nas arestas da angulosa.

Diferentes, quase todas. E as da 32, como as da 31, mais do que diferentes. Indiferentes. Ainda no portão, aquela voz:

Bom-dia, Professor.

Bom-dia. respondi com automatismo. Virei-me, olhei. Já se afastava a figura. Reconhecendo-a, ergui o tom: Ângela, bom-dia.
Não se voltou, não me escutou a doce irmã de Neusa. E aquilo me doeu. Ângela, da terceira série, agora da quarta, Ângela ex-aluna, ex-Ângela minha, das minhas lições, que iria estudar com outros, Ângela que já aprendera História e pelo professor de História já passava ligeirinha, num cumprimento curto, Ângela tão perto e já longínqua. Doeu.

Professor, bom-dia.

Bom-dia, Isabel. Tudo bem, garota?

Isabel, da 31, a interrogativa por excelência, a que me perguntou o que queria dizer shakespeariano, a do álacre ou alacre. E, ao entrar, aquele bom-dia também ligeirinho. Não parou um momento não me indagou se gostei das férias. Outros, daí por diante, ouviriam suas perguntas caprichosas e imprevistas. Isabel, presente e em começo de ausência, Isabel que passou de série, Isabel que perdi. E tantas mais, da 32, da querida 31, tantas que reencontrei e não achei, ainda pequenas da Escola e não mais pequenas de aulas minhas. Só ao entrar e ao sair é que eu as veria, breves aparições no jardim, no pátio de recreio, nos corredores, fugitivas, desatentas ao professor de velhas manhãs, velozes no passar, velozes no dizer: "Bom-dia".

E por isso não foi melhor o primeiro dia de março, no sobradinho cinzento.
Mesmo assim, foi bom. Se alunas perdi, alunas ganhei. Enchiam as salas da 21 e da 22 figurinhas que antes me pareceram esquivas também, mas esquivas somente porque esperavam a hora de chegar, não porque viera a hora de partir. Outros nomes, outras vozes que respondiam à chamada, outras feições oferecendo-se ao meu olhar: Foi um encontro alegre que compensou a melancolia de uma despedida.

Das oito às nove, das nove às dez, esqueci o que onze meses me roubaram, porque o recomeçar das lições me levou a um outrora de quarenta séculos. Renasceu na Amaro o Egito dos faraós e das pirâmides. E iriam reflorescer os jardins de Babilônia, com as verdes criaturas que iniciavam comigo a peregrinação histórica.

Terminei o dia com pequenas que foram minhas e a mim voltavam, as da velha 22, as da nova 32. Deixei-as no fim da escuridão medieval, que já se fazia penumbra no madrugar do Renascimento; reencontrei-as na Europa que principiava a ser moderna. Alguém demorou a chegar, Hilda Schultz, a gorda. E já sem desconhecer a gordura, foi sentar-se na fileira da frente. Não mais se apertaria. E a que chorou na lição de Joana d’Arc brindou-me com o etéreo sorriso, sua única leveza.

Sucediam-se as manhãs. Lá se foi março e o Gama lá se foi. A nova terceira série o acompanhou até às Índias. Com as novas garotas da segunda, visitamos Atenas. E na volta à Grécia, reaprendi a lição que as alunas anteriores já me haviam ensinado. A lição do adolescente em face do heroísmo.

Contei a história daquele dia que jamais anoiteceu na História, o dia de Maratona. Cinqüenta mil invasores persas, dez mil defensores da liberdade grega. E a bravura, que a liberdade inspirou, é vitoriosa.
Que palpitação a das que me ouviam. Naquela manhã, as carioquinhas do Catete foram atenienses.

Mais uma aula, mais uma invasão dos medos-persas. No desfiladeiro das Termópilas, resistem os últimos defensores, com a maior das valentias, a dos que não esperam vencer. E caem, morrem, os trezentos guerreiros de Esparta.

Tal qual no ano anterior, a palpitação das meninas foi menor. As atenienses da véspera não se tornaram espartanas. Devia faltar alguma coisa.

Outra manhã e a guerra continua. Batalha naval de Salamina. Trezentas embarcações na frota dos gregos. Na dos persas, oitocentas. E os gregos vencedores.

A Escola vibrou. Era a segunda vez que vibrava assim com Salamina, tal qual com Maratona. E pela segunda vez não houvera vibração com a suprema valentia das Termópilas.

Por quê? O mesmo heroísmo, sob a mesma inspiração de liberdade, o mesmo desafio do pigmeu ao gigante, o débil no destemor de enfrentar o inimigo poderoso: Que diferença havia então? Uma só vitória.
Decerto, vitória dos fracos, dos pequenos e dos livres, porém vitória. Aquelas almas imaturas, com o otimismo da inexperiência, no calor e na confiança de viver, uniam à idéia do herói a idéia do êxito. Os adultos conhecem que Davi foi bravo porque lutou com o enorme filisteu, não só porque o derrotou. Mas um Davi vencido surpreenderia tanto as garotas da Amaro quanto as entristeceria.

Recordo-me do prazer com que, lá por novembro, as alunas da 31 e da 32 me ouviram contar, na Revolução Francesa, o doido frêmito dos esfarrapados sans-culottes assaltando a colina de Valmy e alcançando um triunfo que parecia impossível. Ignoravam as pequenas quem foi Goethe, mas todas o aplaudiram quando citei o alemão: "Neste lugar e neste dia começa uma época nova na história do mundo."

E em risonho dia de maio a Escola acreditou no alvorecer de um novo tempo, de um mundo novo. A minha primeira lição aproximava-se do fim, mas ao fim não chegou. Porque, de súbito, o soar das sirenas, o buzinar dos automóveis, o troar das fortalezas, maluquice de alegria na rua, no céu os aviões em vertiginoso carnaval de fluidas serpentinas brancas: O Dia da Vitória, o Dia da Paz.

A exemplo dos outros mestres, suspendi as aulas. Eu, com maior razão. Seria ridículo ensinar o passado naquele instante denso de futuro. Um instante miraculoso, que nos prometia redimir séculos e séculos de opressão e de injustiça, milênios e milênios de miséria e horror. O mundo fraterno, que nem a morte de um deus conseguiu criar, acolheria os que sobreviveram a um dilúvio de sangue.

As meninas que riam, que se abraçavam e me abraçavam, convenceram-me, por um minuto, do amanhã nascente naquela manhã. Deixando-as, compareci à assembléia-geral dos professores, em sessão extraordinaríssima no gabinete de Eugênia. Havia um orador, o Feitosa. Não mais o misterioso Feitosa das conversas em surdina a um canto, um Feitosa inaugurado com a Paz, facundo, ruibarbosesco, potente na voz, convincente nos gestos. Dizia:

Hoje estou seguro, seguríssimo, de que se acabaram as guerras. Sim, acabaram de vez. Depois de tanto que sofreram e aprenderam, os povos viverão em harmonia, as superpotências não abusarão da sua força, desaparecerão as ditaduras, nenhum poder ameaçará os direitos humanos, e os pobres da terra serão menos pobres.

Falou, falou. E ouvimos. Muitos, com a mesma convicção de Feitosa, outros só com esperança, mas nenhum descrente de todo. E aplaudimos o primeiro dos futurólogos.

Aquela manhã de maio, com a paz na Europa, foi das últimas que passei no sobradinho. Em agosto, ali já não me encontrou a manhã, da bomba atômica na Ásia. É que, surpreendentemente, ao fim de junho, o pérfido governo resolveu encerrar a sua perseguição. Fui transferido para o turno da noite e, depois, enviado de volta à emissora educativa.

Sofri. Sofri de verdade. Bem me lembro de quanto me doeu abraçar as alegres alunas, então alunas de olhos umedecidos, que se despediam do professor com quem aprenderam tão pouco e a quem ensinaram tanto.

Foi um adeus em silêncio. Falar o quê?

Hoje, abençôo aquela hora que me amargurou. Deixei o reino encantado quando ainda havia encantamento. E os encantamentos que perduram são os que nos fogem depressa. Perder é às vezes ganhar. Pássaro esquivo, que voa na luz, a poesia das coisas não se prende ao ninho escuro do cotidiano. Porque saí da Escola, preservei-a na festa da manhã inicial.

E as manhãs, continuadas, já não me pareciam festivas. De tanto que o vi, o Botafogo das sete e meia acabou desaparecendo ao meu olhar de transeunte acostumado a Botafogo. Via e ao mesmo tempo não via o vôo bailarino das gaivotas, as velas errantes, a nuvem que se enroscava imprudentemente no Pão de Açúcar. No abril da iniciação, a atmosfera dos sonhos, a meninice de um mundo sorridente. E o mundo envelhecera. Ou envelheceu a visão do mundo infantil. Com tanto sol, a neblina do tédio o cobria.

Chilreavam os pardais nos oitizeiros? Não os ouvia, semi-surdo o professor semicego. No Jardim-Leblon, ia lendo o jornal, sem o namoro secreto de antes com as caixeirinhas das lojas e a velhinha da missa. Ir à Escola deixou de ser um passeio.

Até a Escola ficou diferente, porque não mudava. O encontro com Josefa, o soar do bem-lem-bem, as conversinhas de corredor e de saleta, as vozes das garotas com os "Presente" e os "Pronto" da chamada, tudo se repetia. Também eu repeti, com satisfação, o que, no ano anterior, ouvira de outro, com tristeza. Já nas vésperas da transferência, comentei:

Estão chegando as primeiras provas parciais. Depois, um mês de férias. Que bom, hein?

As mesmas palavras de Adelino, que estranhas e absurdas pareciam ao professor em lua-de-mel com o magistério. Ao me escutar, compreendi que a graça de conviver com as meninotas já não tinha tanta graça, que o brinquedo se fizera a obrigação. Reaparecia o adulto no que, aos quarenta, principiou a lecionar com o prazer de um guri vadiando. Ao mestre, que se cansava e se enjoava, já acontecia em junho o que ao mestre ainda novo só acontecera em dezembro.

E mais um dezembro com as meninas seria dezembro de perder meninas. Muitas e muitas vezes, nas lições à 31 e à 32, ouvi de mim: "Em março vindouro, estas passarão por você, num bom dia curto, fugitivas, apressadinhas."

E passariam outras, mais outras, na sucessão dos anos. O professor parado, à beira do rio adolescente. E o rio seguindo, a levar blusas brancas e saias azuis, as mesmas saias, as mesmas blusas, porém não as mesmas náiades na veloz torrente. Por fim, o professor se aborreceria de mirar as ninfas que viessem na correnteza e a correnteza fosse levando.

Porque parti, o rio adolescente deixou de correr. Transformou-se num lago cristalino, sobre o qual me debruço quando quero rever as de cova no queixo, as de pintas no rosto, as de olhar sonso, as de feições abertas, as estabanadas e as manhosas, as baixotinhas de busto erguido, as esguias ainda sem ondulação de seio, a de franja na testa, a de tranças, as de cabelos revoltos, a com pelúcia de pêssego no antebraço, as meninas sempre meninas da Escola, as meninas que me reaparecem na ingênua ilusão de um abril que se foi, as reencontradas infantas do meu reino perdido.

Rio, agosto-outubro, 1970.
 

 
 

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